o coração não conhece limites

Imaginem uma janela de audiência global, como um intervalo comercial do Super Bowl. Só que de três horas ininterruptas. E para 1.5 bilhão de pessoas no mundo! Essa era a oportunidade que tínhamos nas mãos no início de 2014, quando começamos de fato a pensar no conteúdo da cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos. Que história contaríamos?

Como tratar de temas tão sensíveis, inspiradores mas ao mesmo tempo cheios de armadilhas como o universo paralímpico e o mundo das pessoas com deficiência?

Numa tarde de novembro de 2013 toca o telefone: “Fred, beleza? Quero te fazer um convite especial. Quero que você seja um dos três diretores criativos das cerimônias paralímpicas. Os outros dois ainda não sei quem serão, mas achamos aqui depois de muito avaliar que você tem que estar no time! ” Do outro lado estava o Flavio Machado, produtor executivo das cerimônias paralímpicas e vice presidente das cerimônias cariocas, uma parceria entre a SRcom e a Fillmaster (empresa italiana com experiências anteriores em cerimonias olímpicas) que pela primeira vez realizariam as 4 cerimonias (duas olímpicas e duas paralímpicas ) em uma mesma edição dos jogos.

Foram dois anos e meio de um projeto raro. Talvez único, onde um time de mais de 500 pessoas realizaram um feito e tanto.

As cerimonias foram um marco na história dos jogos, mudando completamente o mood de milhões de pessoas no mundo e principalmente no Brasil. Mostramos pro mundo quem somos. Nosso poder de emocionar, de encantar, de irmos no coração dos temas e o mais importante, das pessoas.
Já com a cerimônia de abertura Olímpica, o sarrafo foi colocado lá em cima! Unanimidade no mundo! Nosso time festejou, mas se antes nos perguntavam se a nossa cerimônia paralímpica seria melhor do que a da copa do mundo e nós respondíamos com um sonoro e seguro ” É claro!!!”, agora a comparação mudou de nível. Com uma verba 4 vezes menor do que a verba Olímpica, tivemos que esquecer os limites financeiros e tirar todo o partido da força dos nossos temas!

E de romper limites o mundo paralímpico entende um bocado. Já no início da festa, o americano Aaron Fotheringham, atleta paralímpico de 24 anos, desceu uma rampa gigante em sua cadeira de rodas e decolou para um salto por dentro de um anel adornado por fogos de artifício, aterrissando sobre um colchão de ar para delírio da plateia no Maracanã. Foi uma performance de tirar o fôlego.

 

 

Com o mote central ” O coração não conhece limites”, exploramos, nos dez segmentos, os principais aspectos que impactam o movimento paralímpico no mundo.

Da relação entre homem e maquina à importância da “roda” como síntese da nossa inventividade.

 

 

Da ampliação dos sentidos ao questionamento da perfeição dos corpos proposta no homem vitruviano de Da Vinci.

Contamos com um time absolutamente incrível. Todo o corpo criativo era formado por brasileiros.

Além de um número enorme de técnicos, muitos deles ciganos olímpicos com muita experiência em outras cerimonias, estrangeiros de muitos lugares.

Na sequência, os outros dois diretores foram convidados e, claro, aceitaram! Vik Muniz e Marcelo Rubens Paiva estavam a bordo com suas contribuições geniais. Vik com seu repertório infinito do mundo das artes, sua intuição e velocidade que fizeram toda a diferença.

Marcelo, com seu olhar crítico, seu bom humor foi fundamental para dar profundidade ao nosso olhar sobre o tema da deficiência. Ele desmontou algumas das nossas certezas e abriu novas frentes.

Como a grande gestora criativa de todo o processo, Alice Gelli, minha filhota e assistente direta, me encheu de orgulho, dando ideias que fizeram a diferença. Cássi Abranches como diretora de coreografia e terapeuta de mais de 3000 voluntários, Ronaldo Fraga criando figurinos geniais que só ele sabe fazer.

 

 

Tânia Savaget, nossa sócia na Tátil que puxou pra si toda a parte de formalização dos conteúdos com seus textos profundos e precisos, Rodrigo Pimenta e seu time de Pokémons evoluídos pilotando toda a parte de conteúdos videográficos, Flavio Machado puxando pra si as responsabilidades complicadas da produção executiva, Abel Gomes como chefe master chegando sempre nos momentos de impasse e colocando a energia certa que transformava os problemas em soluções brilhantes. Berna Cepas dirigindo a concepção das trilhas sonoras, com criações sob medida como a que Pedro Bernardes fez para o momento da formação dos agitos. Esses e muitos outros nomes foram fundamentais para que a coisa desse certo. Inclusive dentro do time, vários ex-táteis, como Erika Martins, Marina Lutfi, Fabio Gaspar e Pilar Rodriguez Valle.

No final deu tudo mais do que certo, e depois de uma aventura criativa única na minha vida, pois foi a primeira vez que me envolvi em algo assim.

Aprendi muita coisa e me apaixonei pela possibilidade de usar o design como conector, como liga para um espetáculo como esse.

A repercussão foi a melhor possível e no mundo inteiro nossa mensagem foi compreendida. Tocou as pessoas, ajudou a mudar radicalmente o mood do carioca para os jogos paralímpicos e, em uma semana, os ingressos para as competições, que estavam com vendas muito abaixo do esperado, praticamente se esgotaram.

Na hora, no Maraca, a emoção foi “F”!!! Eu chorava na horizontal. Nada é comparável em termos de experiência criativa. Você ver o resultado das ideias, do planejamento, do esforço de produção, impactando ali, ao vivo, tanta gente. Os aplausos, os suspiros nos momentos mais emocionantes, o Maracanã pulsando como um coração gigante, nas luzes piscando, nas palmas comparadas, na trilha de arrepiar, mostrava que apesar de todas as dificuldades do caminho, para o coração, não existem limites!