olhar a natureza para buscar inspiração

O What Design Can Do Amsterdam aconteceu nos dias 23 e 24 de maio. O evento, que reuniu designers, criativos e profissionais ligados às questões ambientais do mundo todo, colocou em discussão o papel do DESIGN na redução dos impactos nas mudanças climáticas!

Fui convidado para fazer três participações diferentes no evento. A primeira delas foi a respeito do caráter dos “esforços de comunicação” do tema em campanhas e manifestos que, de um modo geral, apelam para imagens dramáticas e chocantes de animais deformados, catástrofes ambientais etc.

No fundo, todo o esforço é no sentido de alertar as pessoas quanto às mudanças de comportamento que se fazem necessárias para reduzirmos os riscos relacionados às alterações climáticas.

Como sempre faço, fui olhar para a natureza para buscar inspiração. Como a natureza comunica e estimula um determinado comportamento? Quando vemos um fruto maduro ou uma flor se abrindo, estamos diante de fantásticas peças de comunicação desenhadas como convites irresistíveis; no caso as cores, texturas e aromas comunicam para os seus “targets” o fato de estarem prontos para serem comidos ou polinizados, cumprindo assim o objetivo maior da natureza de espalhar a vida! Basicamente o que a natureza faz é “criar desejo”! Essa é a melhor maneira de estimular um comportamento.

 

 

Outro exemplo que dei foi a estratégia de design por trás da relação entre mães e filhotes. Cuidar de um filhote dá um trabalho danado, exigindo comportamentos muito específicos dos pais que, em qualquer espécie, precisam se dedicar por um bom tempo quase que exclusivamente a esse ofício. Como a natureza garante que isso aconteça? Pois se uma mãe leopardo desiste do seu filhote que só apronta, ele com certeza vai sobreviver por pouco tempo. Pior ainda quando se trata de um filhote humano, que depende exclusivamente dos pais por até os 3 ou 4 anos. A natureza simplesmente faz com que o design dos filhotes seja absolutamente irresistível!

 

 

Proporções, texturas e fragrâncias que fazem os pais se apaixonarem por eles. A “fofisse” de um filhote na verdade é uma sofisticada estratégia de design que garante o comportamento que a natureza deseja para perpetuar a vida: paciência (quase) infinita com a prole aumentando a chance deles sobreviverem! Mais uma vez o “desejo” funcionando como estímulo a um comportamento!

 

 

Por que não podemos fazer o mesmo nas causas ambientais?

Ao invés de lutarmos em vão com campanhas de mau gosto que dizem o que não devemos fazer, por que não usarmos nosso poder criativo para desenhar soluções de produtos e serviços que realmente representem soluções para nossos desafios futuros?

Um bom exemplo é o Airbnb. Quando passamos a ter a opção de nos hospedarmos em um apartamento, estamos contribuindo significativamente para a redução do impacto ambiental na medida em que novos hotéis não precisam ser construídos. Essa mudança de comportamento que hoje já chegou, inclusive, na hospedagem executiva se deu não por conta do aumento da consciência das pessoas advindas das campanhas dramáticas das ONGs ligadas ao meio ambiente, mas por conta da qualidade da experiência com o novo serviço.

É o desejo das pessoas desfrutarem a sensação de serem “locais” em uma cidade que fez com que esse comportamento venha se consolidando a cada dia. Tudo isso, claro, somado à eficiência da plataforma. Nos nossos dias, os esforços de comunicação de um produto ou serviço se misturam cada vez mais com a qualidade dos mesmos, uma vez que nunca foram tão importantes as recomendações e o nível de “dependência” que acabamos estabelecendo com os bons serviços que mudam nossas vidas. Como, por exemplo, abrir mão do Waze? Não uso o Waze por nenhum tipo de influência de marketing ou comunicação. Simplesmente não vivo mais sem ele. A plataforma vem reduzindo os engarrafamentos nas cidades, fazendo com que as pessoas economizem tempo; certamente o item de maior valor nos dias de hoje. Mais uma vez o que vale é a qualidade do convite, é a interface intuitiva. Assim como o fruto maduro, ou a flor colorida e cheirosa, não ficam dúvidas sobre o que fazer diante de soluções de UX tão claras e atraentes! Nessa hora, “What Design Can Do” a partir dos ensinamentos da natureza?

Liderar a criação de produtos e serviços que continuem seduzindo as pessoas a fazerem novas opções.

Deixe seu carro na garagem. Vá de Uber ou ainda pegue sua bike que, além de se manter saudável, contribui com a redução do impacto ambiental!

A segunda participação foi em um workshop de Biomimética para 40 pessoas que fiz em parceria com a Vbat, um escritório de design com o perfil bem parecido com o da Tátil. Imaginem que Amsterdam foi inundada por conta do aquecimento global e você precisa sobreviver nesse cenário, se inspirando nas soluções que a natureza daria… Esse foi o desafio que propusemos! Depois de uma apresentação que fiz introduzindo o assunto, os cinco grupos receberam cards com organismos diversos e suas respectivas competências. As soluções foram inteligentes e criativas. Mas o melhor foi a sensação de que para eles foi, de fato, uma abertura de novas possibilidades de inspiração diante dos exemplos geniais que vêm da natureza!

 

 

No segundo dia, fui convidado também para participar de “Climate Concil” durante a tarde de apresentações que inclui a de Bruce Mau. Nosso papel era funcionar como “experts” que teriam prioridade para fazer perguntas a respeito dos conteúdos expostos. Foram duas horas de apresentações muito especiais como a do próprio Bruce ou ainda a de Naresh Ramchandani, sócio da Pentagram em Londres que apresentou seu projeto paralelo que reúne criativos do mundo todo que criam filmes, pôsteres e outras peças gráficas, apoiando causas ligadas ao meio ambiente.

No conselho, estávamos eu, o Marcelo Ebrard, ex-prefeito da Cidade do México que foi eleito, em 2010, como o melhor prefeito do mundo em uma votação global, e a diretora da Fundação IKEA, Elizabeth McKeon, uma das instituições apoiadoras do WDCD desde a primeira edição.