O PROCESSO ME ENCANTA MAS ME ASSUSTA - Uma crônica sobre o fazer

April 11, 2026
7:00
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Querido cliente, desejo que esse projeto nuncaacabe.

Mas não me leve a mal. Não é sobre não entregar, e simsobre enfrentar a ruptura da experimentação que ocorre na jornada decriação.

Não é insegurança. Esse projeto é meu jeito deviver. Dramático, eu sei.

Bruno Munari, em seu livro “Fantasia”,mostra que a criatividade nasce da relação com o mundo. A inteligênciaorganiza nossas experiências para dar sentido ao que vemos. E, então, quantomais conhecimento de mundo acumulamos, mais repertório temos para criar.

É por isso que eu preciso ver o mundo inteiro antesde entregar esse projeto pra você.

E é por isso que o processo me assusta. Só épossível criar algo com base nos conhecimentos adquiridos no mundo. Eisso também me encanta.

Eu sei que tô gostando do processo quandopercebo que queria que durasse um pouco mais. Não por medo de não dartempo, mas por medo de desperdiçar tantas outras coisas legais que aindatinha pra descobrir.

E clamo com orgulho:

— Eu não quero o que já está pronto. E, se jáexiste, quero ter a oportunidade de personalizar. E essa minha buscapelo original é minha sentença de sofrimento eterno.

Iniciar o projeto nem dói tanto. Basta disciplina ecomprometimento. Mas o meio do caminho me tortura.

Porque é ali que o repertório entra em conflito coma escolha.

A inteligência, entendida como a capacidade de observar,deduzir, verificar, elaborar e investigar, não garante que eu sereicriativo; não sou eu que tô falando, é o Bruno. A ponte entreinteligência e imaginação é a produção. É fazer, fazer e fazer. Porque meuenvolvimento está vinculado ao resultado desse projeto.

É no fazer que as conexões da memória se articulamrumo a uma manifestação criativa. E, de novo, não sou eu falando; é a CecíliaSalles, em seu livro “O Gesto Inacabado”.

Eu só sou aquele que está sofrendo. Porque éjustamente no fazer que tudo começa a doer.

Nessa jornada de ter que escolher, descartar ourecusar alguma coisa, mora aquela incerteza: “E se eu deixo escaparaquilo que poderia ser a solução adequada praquele desafio?”

Quero morrer se eu fizer a escolha errada.

Aí alguém vai dizer que não tem que levar propessoal. Aquele manifesto clichê: “Não é sobre você, e sim sobre o seu trabalho,que tem como objetivo resolver um problema de negócios.”

Será?

É tão robótico assim? É tão simples assimreduzir o processo criativo a uma resposta funcional? Sou humano,poxa. Eu me importo. Você não?

E se eu não me importasse? O que foi aquela noite emque fui pra cama com aquilo pesando na cabeça, afundando o travesseiro? Ouquando nem tô dormindo, tô distraído, sonhando acordado com aquela coisaturva entre meus olhos e a tela da reunião de pauta? Ou até mesmo fazendococô? Não tô romantizando. Eu tô falando de envolvimento.

A Cecília propõe um olhar mais maduro. Para ela,a obra não é um ponto final, mas sim o resultado de um percurso.Um percurso feito de aproximações sucessivas.

Seja no desenho, no texto ou no prompt que eunão sei bem como compor, para tentar tangibilizar aquela coisa turva queparece linda na escuridão dos meus olhos fechados. Cada tentativa eabordagem me deixa mais perto do que acredito ser a minha “obra-prima”.Um longo percurso de dúvidas, ajustes, certezas, acertos e aproximações.

O que chamamos de projeto, portanto, não é um objeto, esim um trajeto. Isso não é só trabalho: é a minha vida sendosequestrada pelo processo.

E, nessa síndrome de Estocolmo, eu não queroa solução fácil, não. Eu quero me apaixonar pela solução perfeita,criada pelas minhas próprias mãos. Eu quero fazer de verdade. E, secomeçar, é o primeiro passo para o fracasso, que EU erre até o final. Enão me venha essa coisa digital me pôr travessões ou dedos extras onde eunão pedi.

Porque o conhecimento de mundo não é apenas acúmulopassivo; ele se constrói na prática, na experimentação, na relação com omaterial, com o outro e com o problema. A percepção, nesse sentido,torna-se um instrumento ativo: é por meio dela que o “artista”coleta, organiza e transforma a informação em linguagem.

E quando meu dedão já não aguenta mais rolarinfinitamente uma vertical de referências que não fazem sentido nenhumpro meu projeto, quando rabiscos, punhados de palavras, colagens e fragmentospassam a ser mais interessantes do que respostas prontas, é que eu percebo queestou entendendo a “verdade” disso tudo.

Eu poderia até pensar: “Vou me render à primeiraideia. Pelo menos, eu paro de sofrer.”

Mas eu me importo. E, se eu me importo, continuotestando, observando, fracassando de novo. Até o final.

Mesmo sem garantia. Sabendo que o erro faz parte dotrajeto, eu quero ir mais fundo, porque estou comprometido emrealizar algo que ainda não tem forma, mas “tá lá”, naquela zonanebulosa entre meus olhos e o mundo, quase ficando nítida.

O processo vira, então, um sistema vivo de troca:entre o mundo e o indivíduo, entre o repertório e a decisão, entre a dúvidae a forma.

E, quando eu começo a gostar dessa dança, vem o prazosussurrar no meu ouvido. “Me dá mais um dia”, peço. “Oudois.”

Mas a entrega é amanhã.

E eu queria mostrar mais. Queria fazer um striptease da minha ideia, te seduzir com meu Keynote, meu “deck”,meu PPT ou meus Figma Slides.

Me dá mais meio dia?

Eu negocio.

Pelo menos mais uma tarde? Eu imploro.

Quero lapidar mais um pouquinho antes daapresentação. Porque eu sei que ainda não está pronto.

“Tá respondendo ao briefing”, eles vãodizer. Mas e aquele monte de julgadores dentro do meu cérebro, gritandoalto: “Você ainda não experimentou TUDO.”

E talvez nunca experimente. Talvez esse seja oponto.

O processo criativo carrega inevitavelmente a sensaçãode incompletude. Sempre haverá algo que ficou de fora, uma possibilidadenão explorada, uma ideia que não chegou a existir.

E é isso que assusta, de novo. Mas também é issoque me encanta.

Porque, quando finalmente algo se encaixa, mesmoque provisoriamente, em um instante, tudo faz sentido. E, por um brevesegundo, o caos se organiza e eu me sinto inspirado.

Ah, sim, a inspiração existe. Mas, até hoje, eusó a encontrei trabalhando. E todo “feedback” é, para mim,a minha incrível oportunidade de experimentar aquelas outras ideias queainda não tive.

Conteúdo em parceria com
Clube de Criação
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